Notas sobre o cinedebate com o filme Aniki Bobó

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O fim de tarde e noite de dia 28 de Maio na Ponte foi muito bem passado, com um Cinedebate sobre o filme de Manoel de Oliveira “Aniki Bobó”.

O debate foi orientado por uma cinéfila e estudiosa da 7ª arte, especializada em estética dos media, que fez o favor de nos deixar umas linhas, em jeito de ensaio, que transmitem um pouco a sua reflexão aprofundada do filme e daquilo que foi o debate na Ponte:

CinedebatePonte20110528dAniki-Bóbó é o primeiro filme de ficção de Manuel de Oliveira. É inspirado no conto “Os Meninos Milionários” de João Rodrigues de Freitas, publicado
na revista Presença em
1935. O título Aniki-Bóbó é um verso duma melopeia usada por crianças da zona ribeirinha do Porto quando brincavam aos polícias e ladrões.

O filme estreou no dia 18 de Dezembro de 1942 no Éden em Lisboa. Não teve êxito comercial na altura e não foi bem acolhido pelo público.

Quase vinte anos depois, em 1961, nos Encontros Internacionais do Filme para a Juventude em Cannes, recebe o Diploma de Honra!

Em 1954 Manuel de Oliveira declarou no Ciné-Clube do Porto:

“Ao contar uma história tão simples como esta, pretendeu-se fazer espelhar nas crianças os problemas do homem, problemas ainda em estádio embrionário; pôr em oposição concepções do Bem e do Mal, o ódio e o amor, a amizade e a ingratidão. Pretendeu-se sugerir o medo da noite e do desconhecido, a atracção da vida que palpita em todas as coisas à nossa volta, contrastando com a monotonia do que é fechado, limitado por paredes, pela força ou pelas convenções. Se se entrevê ou se sente, no decorrer do filme, qualquer aspecto de carácter social ou económico, o certo é que isso nunca foi ponto fundamental de estrutura ou construção. Como já não era em Douro, Faina Fluvial. Quando muito, em Aniki-Bóbó, intencionalmente, mas muito ao de leve, pretendi sugerir uma mensagem de amor e compreensão do semelhante, como advertência a uma sociedade que luta e se desespera em injustiças.”

Este filme conta a história de um grupo de miúdos que vão à escola, nadam no rio, brincam aos polícias e ladrões, constroem papagaios, crescem e descobrem a vida e são confrontados com o tema da morte. A história de ciúme na constelação das figuras de Carlitos, Teresinha e Eduardo acompanha toda a acção. A melopeia já anunciada no título tem uma grande importância neste filme.

Aniki-Bébé,
Aniki-Bóbó
Passarinho, tótó
Berimbau,
cavaquinho
Salomão,
sacristão
Tu és polícia,
tu
és ladrão

Esta melopeia funciona como uma fórmula com a qual a construção da narrativa está sempre relacionada: ela estrutura o filme, antecipa os acontecimentos e reflecte a acção. A melopeia faz parte do imaginário das crianças e influencia o ambiente que os envolve. Logo na primeira cena aparece Carlitos a brincar com um boneco, fazendo-lhe balançar a cabeça e dizendo no ritmo: “Aniki-Bóbó”. A própria mãe participa no jogo e, quando Carlitos diz “Aniki”, ela responde “Bóbó”. Nos encontros dos rapazes, Aniki-Bóbó é utilizado como forma de confirmar as ordens do capitão. Quando jogam aos polícias e ladrões, Eduardo utiliza a melopeia para fazer a contagem e decidir quem é polícia e quem é ladrão.

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Todo o filme trata o imaginário destas crianças. O medo da noite e dos polícias é tematizado nesta história. Quando Carlitos é definido como ladrão, ele diz “Eu não quero ser ladrão”, mas Eduardo responde “Quem manda aqui sou eu. Sou o capitão. Já disse:
tu és ladrão!” A frase” tu és ladrão” persegue Carlitos durante o jogo. Uma voz sussurra esta frase, Carlitos está com medo e assusta-se com a sua própria sombra. Ele é apanhado por Eduardo. Aparece-lhe o vulto de um polícia que depois se transforma no rosto de Eduardo. As margens entre a realidade e o jogo são indefinidas.

A melopeia faz também parte duma encenação musical em que Eduardo é o maestro e todos os miúdos marcham com ele. Eduardo canta a melopeia e o grupo responde em coro “Eu não quero ser ladrão… tenho medo da prisão…” A seguir é a Teresinha que inicia a melopeia. Durante esta parte Carlitos sai do grupo e põe-se ao lado da Teresinha. É aqui que começa mais uma zanga entre Eduardo e Carlitos. Quando o comboio se está a aproximar, os miúdos querem vê-lo passar e correm para a ribanceira. Eduardo escorrega, Teresinha grita e todos pensam que foi Carlitos que o empurrou. No fim desta cena aparece a imagem do papagaio roto: a brincadeira acaba e as crianças estão de repente confrontadas com a morte.

O sonho de Carlitos marca o momento central do filme. Nesta sequência onírica, a narrativa atinge o ponto culminante. É o momento do desespero antes da mudança e da resolução. A encenação do sonho é importante a vários níveis. É um comentário acerca da narrativa, um comentário metadiegético. Um aspecto visual, o escoar da água, simboliza a fatalidade da situação. Outros aspectos, como o grito de Teresinha e o passar do comboio são elementos audiovisuais já conhecidos da história que aparecem aqui repetidos. Os problemas introduzidos até este momento do filme aparecem como imagens sugestivas: a boneca como o ponteiro de um relógio, o lojista como fantasma, o professor a dizer “roubar é pecado mortal”. Esta montagem de elementos, este sequenciamento dinâmico de alta velocidade provoca a sensação de impotência perante um grande desastre, sugere a necessidade urgente de resolver o problema. No que diz respeito à história, o sonho representa a consciência de Carlitos. O sentimento de culpa que Carlitos desenvolve perante o roubo da boneca está aqui ligado ao problema da queda de Eduardo e ao grito de Teresinha. Neste sonho tudo se junta, momentos diferentes formam uma sequência.

O dono da Loja das Tentações aparece como ajudante e como educador. É ele que esclarece os acontecimentos, acaba com os mal-entendidos e dá a Carlitos a oportunidade de se redimir. Esta mudança já é sugerida de forma subtil na sequência do sonho: Teresinha aparece num espaço vazio e escuro a chamar por Carlitos. A seguir vê-se a Loja das Tentações em ambiente leve e de brincadeira. A atmosfera é feérica. O lojista toca um realejo e as crianças entram e saiem da loja como se estivessem num carrossel.

O tema da educação e da conduta está sempre presente. O saco de Carlitos onde está escrito “Segue sempre por bom caminho” é um leitmotif do filme. A caricatura do professor e do bom aluno é uma crítica à educação limitada, pouco voltada para a vida. É o lojista que representa aqui o verdadeiro educador.

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One thought on “Notas sobre o cinedebate com o filme Aniki Bobó

  1. Que pena só ter chegado a este artigo agora, gostava muito de ter ido a esta sessão para reencontrar a minha colega de faculdade de quem fiquei amiga à cerca de dez anos, Annukka. Fico muito contente com o seu trabalho (sempre foi uma excelente estudiosa).
    Escrevo aqui na esperança que ela veja este meu comentário e quem sabe nos voltemos a contactar 🙂

    Ass. Sónia Costa Campos

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